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Liberte-se da síndrome do empregado

Como o vírus do empreendedorismo pode levar ao pleno desenvolvimento humano.

Segundo Dolabela¹ “síndrome do empregado” é uma coleção de características (sintomas) marcadas pela dependência. Manifestam-se nos profissionais que dominam a tecnologia, porém, não a inovação. Possuem o know-how², mas não o know-why³, ou seja, sabem como fazer e não o porquê fazer, ou para quem oferecer. Carecem de capacidade para identificar oportunidades e aproveitá-las. Interpretar as necessidades latentes, ocultas, disfarçadas, observar as falhas de atendimento no mercado existente, e traduzi-las em produtos e serviços de valor. Enfim, criar riqueza.

Os indivíduos são levados a escolher entre as profissões disponíveis, muito frequentemente, desprezando suas características, seus pontos fortes e fracos, e, especialmente, seus sonhos que acabam distorcidos ao longo da vida. Deixamo-nos “encaixotar” e buscamos saber cada vez mais sobre o conhecimento disponível quando a necessidade real é aprender a criar o que ainda não existe. Precisamos inovar, característica fundamental do empreendedor, que é hábil em criar sua própria atividade.

 

Mas, é possível aprender a ser empreendedor? Não da maneira convencional. Dolabela usa o termo desenvolver. Pode ser desenvolvido o potencial empreendedor presente no indivíduo, diferente do ensino de conceitos e técnicas. Ele introduz a palavra inglesa develop, utilizada para indicar a revelação de fotografias, como metáfora para o aprendizado de empreendedorismo: revelar, tornar visível uma imagem pré-existente. É um processo de, usando a linguagem da Biologia, autopoiese: autoprodução, autoregulação, constante adaptação ao meio. Cabe a cada um despertar as características e desenvolver conhecimentos, atitudes e habilidades empreendedoras.
 

 

Esse processo contrapõe-se ao emprego. A partir da expansão da Revolução Industrial há mais de dois séculos, passamos a nos preparar para fazer parte de uma organização onde o produto é o ponto central e o humano relegado ao papel de meio. A gestão das pessoas como recursos tolhe, limita e, em geral, torna infeliz. Então, grande número de pessoas “sacrificam” suas vidas à espera da aposentadoria, ou seja, o não-trabalho. Dolabela cita o historiador norte-americano David Landes que divide a humanidade em dois grupos: os que vivem para trabalhar e os que apenas trabalham para viver. Segundo Landes é o primeiro grupo que oferece a maior contribuição para seu país. Em contraponto, pessoas apaixonadas pelo que fazem nem pensam em aposentadoria.
 

O conflito entre emprego e empreendedorismo apresenta-se como enorme desafio para as teorias da administração. Vivemos uma era de competição acirrada, onde a inovação é a fonte principal de valor, estimular a criatividade requer ambientes plenos de liberdade onde as emoções sejam valorizadas, os erros aceitos como parte do processo, e os sonhos, propulsores da persistência. Parece surgir assim um caminho conciliador entre emprego e empreendedorismo.
 

Enfim, o processo de aprender empreendedorismo exige profundo conhecimento de si, sonhos, desejos, motivações, atitude humilde e coragem frente à velocidade de superação dos conhecimentos existentes. Aprender a aprender, ser autodidata, independente, persistente, resiliente, engajado no processo contínuo de conhecer, fazer, errar, corrigir, criar. O empreendedorismo pode levar ao pleno desenvolvimento humano.

Cristiam B. Oliveira, Administrador de empresas, Mestre em Filosofia. Email: cristiam@araxaconsultoria.com.br

  1. � DOLABELA, Fernando. Oficina do empreendedor. Rio de Janeiro: Sextante, 2008. pp. 12-17.
  2. Know-how, savoir-faire ou conhecimento processual é o conhecimento de como executar alguma tarefa.

  3. � Know-why, é o conhecimento que ultrapassa o saber como as coisas são, como fazer e preocupa-se em entender o porquê das coisas, por que elas são como são, e leva a pensar por que não poderiam ser diferentes.

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